No caminho que me leva até a praia vou fazendo uma espécie de exercício de criação. Penso em palavras que possam expressar cada cena, depois digo em voz alta, repito, prá ver como soa. Já disse, se pensarem que sou louca, azar. Cada um com as suas loucuras, a minha é essa.
Também, porque tenho muitas mais.
Último dia do mês de janeiro, já restam só onze meses deste ano de 2012.
Cá estou, agora sentada em frente ao mar, os pés a afundar na areia morna, cabelos ao vento contidos por um chapéu de palha, um livro de crônicas na mão, na bolsa vermelha o caderno espiral, o celular, a câmera foltográfica e uma caneta sem tampa. Óculos de ver de perto e está feito o quadro.
Leio.
Ouço a voz agradável da moça do chapéu psicodélico e tiro os olhos do livro para olhá-la.
Tem nas mãos um mostruário de artesanato, onde se distribuem anéis, colares, brincos e tiaras em macramê.
A pele dela tem cor de cuia e os olhos são de um azul de doer. Pela fala, não parece ser daqui, mas não consigo decifrar de onde possa ser.
Elogio o trabalho, na verdade é tudo muito bem feito e mostra criatividade. Ela agradece com um sorriso e segue o seu rumo a deslizar pela areia, parando vez ou outra a cada novo grupo de pessoas. Não compro nada, não costumo levar *dinheiro quando vou à praia, mas bem gostaria de ter ficado com alguma das peças. Quando ela se afasta, tiro a câmera da bolsa e tento focar o chapéu. Ai, aquele chapéu que me ficou no goto, desde um dia em que vi um rapaz usando um igual, ali no centrinho da Barra. Tenho verdadeira tara por chapéus. E esta pode ser mais uma das minhas loucuras confessas. Mas o chapéu, pura verdade, é inusitado e juro que está faltando na minha coleção.
Volto ao livro.
Passa a outra moça do bolo integral, antes ainda a dos panes rellenos.
Floripa toda, de sul a norte, anda tomada por argentinos e não só. Há holandeses, ingleses, australianos, americanos, finlandeses e mais. Gringos de todos os cantos.
Ontem à noite vi a matéria no último jornal da noite, na Globo. Se a memória não falha, Santa Catarina já é o segundo destino turístico no Brasil. Só fica atrás do Rio de Janeiro. Mesmo?
E dá mesmo para ver. Na matéria mostravam a Barra da Lagoa no seu melhor e depoimentos de turistas. Bom. Possibilita a troca de idéias, integra culturas. Também é um pouco mau. Os preços por aqui, desde que iniciou o verão, triplicaram sem dó nem piedade. Quem mora o ano todo, sente a diferença.
E caminhando pelas ruas do centrinho, às vezes tenho a nítida impressão de estar em qualquer um dos países vizinhos, menos no Brasil. Menos em Santa Catarina, na Barra da Lagoa. Nos bares e em muitas das casas comerciais já somos atendidos por argentinos e uruguaios. Bom para os turistas, que acabam por sentir-se em casa e retornam a cada ano, em maior número.
O sol começa a esconder a cara e eu lembro que ali ao lado da ponte azul há o Butiquim. Impossível não ir ao pastel de queijo.
Guardo o livro, recolho a cadeira e levo a câmera a tiracolo.
No caminho, mais fotos.
O pastel é uma delícia, feito na hora. E vai bem demais com uma cerveja bem gelada.
Ave, Arsénio, soubeste escolher um dos melhores cantos da Barra. Cheers!
Está aqui um ventinho bom do caraças, a gente até fica se perguntando se merece tudo isso.
Interessante é que no caminho encontro a moça do chapéu. Sai da zona de areia com outra vendedora ambulante e há um rapaz que, pedindo para que façam a pose, bate a foto. Deppois diz:
- Diretamente de Goiânia para as praias gaúchas!
Gaúchas?
Pensei que estava em Santa Catarina.
A outra, que não é a do chapéu, caminha atrás de mim, ao sair da areia. E eu não resisto.
- Sou maluca por aquele chapéu.
Ela diz que é lindo e fala que tem prá vender.
Chego perto e olho detalhadamente o chapéu de feltro, na cabeça da moça de olhos azuis.
_ Mas o que é este chapéu, é um chapéu de que?
_ De duende. É lindo, não é?
_ Sim, sim. Vi noutro dia, um rapaz usava um igual. E fazes prá vender? Eu coleciono chapéus.
_ Claro, faço um, vendo, faço outro.
_ Eu quero, podes vender prá mim? Mas tenho que pegar amanhã, que hoje não trouxe dinheiro.
_Posso, sim, amanhã vou estar aqui pela praia. São cinquenta reais.
E fica assim acertado, quando vejo que junto com ela está o rapaz que vi noutro dia a usar o chapéu.
Sentada à mesa, no Butiquim, saboreio um dos melhores pastéis de Floripa. E fotografo um menino de uns cinco anos que joga a tarrafa ali no cais dos pescadores e que de vez em quando olha prá dentro da peixaria, conferindo se está tudo como deve ser na sua atividade de gente grande. Impressionante, mas ele tem o jeito todo, as manhas. Fico encantada.
Depois, já indo prá casa, entro na peixaria e encomendo uma tainha prá amanhã de manhã. Não é fresca, porque se está na altura do defeso. Mas tem bom aspecto e vai ser assada no forno para o almoço.
Ganho a rua com a sensação de ter visto tudo isso em um filme qualquer.
Vida a pleno, isso é o que é.
Se não for, deve andar bem perto.
* Explicando: Não costumo levar dinheiro GRANDE.
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012
Inspiração
Floripa tem isso. Por mais que a gente acorde meio atravessado, às vezes, abre a janela e vê ali a exuberância da natureza a oferecer um espetáculo sem igual todos os dias. Não dá prá ficar indiferente. É encher de ar puro os pulmões e gritar de alegria, porque estamos vivos, porque o mundo é cheio de cores e as pessoas são todas especiais.Se acharem que a gente é louco, azar.É que essa beleza toda chega a ser um exagero. Olhar a Praia Mole de cima do morro, com aquela água azul de doer, não tem nada que se compare. E chegar na Barra, então? A vista lá de cima é de tirar o fôlego. São só dois exemplos.Não temos remédio, só podemos estar bem. Melhor do que isso, só com a família e os amigos queridos por perto.É um desencadear de sonhos...E a gente a tentar fazer caberem todos dentro de uma vida só.
Sábado, Janeiro 28, 2012
CHICÃO - Querido por todos

Desde Florianópolis, a gente se emocionou demais com as homenagens feitas ao Chico, ontem, na abertura oficial da Copa Santiago.
Estivemos acompanhando a transmissão da Rádio Santiago e da Rádio Verdes Pampas, através da Internet. Eu, a Eda, o Elias, os filhos e os netos dela.
Estas atitudes traduzidas em manifestações emocionadas, que fazem os momentos tão especiais na vida da gente, nos fazem acreditar verdadeiramente que toda a vida, o carinho, o amor, o trabalho, a forma de se posicionar perante o mundo e a força da luta pela justiça e igualdade para todos, características tão marcantes do nosso Chicão, valeram completamente a pena.
Temos muito orgulho do homem, da pessoa, do amigo verdadeiro que ele foi.
Obrigada a todos, do fundo do coração.
Estivemos acompanhando a transmissão da Rádio Santiago e da Rádio Verdes Pampas, através da Internet. Eu, a Eda, o Elias, os filhos e os netos dela.
Estas atitudes traduzidas em manifestações emocionadas, que fazem os momentos tão especiais na vida da gente, nos fazem acreditar verdadeiramente que toda a vida, o carinho, o amor, o trabalho, a forma de se posicionar perante o mundo e a força da luta pela justiça e igualdade para todos, características tão marcantes do nosso Chicão, valeram completamente a pena.
Temos muito orgulho do homem, da pessoa, do amigo verdadeiro que ele foi.
Obrigada a todos, do fundo do coração.
Recuerdos
A maior parte das minhas férias, em criança e adolescente, eram divididas entre a praia do Cassino e a casa de minha avó materna, a vó Maria, na cidade fronteiriça de Rivera.
Os carnavais eram quase todos de revolver aquele baú mágico que havia no canto do quarto da avó e encontrar ali as fantasias mais inusitadas. Fazíamos sucesso nos bailes do Clube Uruguai, onde confetes e serpentina forravam o chão do salão e tenho uma vaga lembrança de que às vezes formavam montes que nos chegavam perto dos joelhos. Eram tempos de fartura, em todos os sentidos.
Minha avó Maria era daquelas figuras marcantes. Mulher de personalidade forte, descendente de um português que aportou em Pelotas, casou muito cedo com meu avô, um castelhano nascido dentro de um navio no Mar del Plata. Conheceram-se em Pelotas, onde ele, neto de avó índia, era proprietário de uma ferragem e uma espécie de cônsul argentino naquelas paragens. A minha avó vivia com os dois irmãos e o pai, em virtude da morte prematura de sua mãe. Era ainda uma menina sonhadora quando passou à condição de esposa. Meu avô, alguns anos mais velho, tratava-a com a delicadeza proporcional à fragilidade que acreditava ter, enchendo-a de mimos, presentes e um carinho quase de pai. Quando ela, por herança, recebeu umas terras no interior doUruguai, foram viver em Rivera e ali estiveram até o fim de suas vidas, como cidadãos uruguaios, embora sendo ela brasileira e ele argentino. Na verdade, a avó, por conta de ter casado com ele, também tinha cidadania argentina. Tiveram cinco filhos, a minha mãe, a tia Martha, o tio Beto, a tia Ude e a tia Marita. À exceção de minha mãe e da tia Martha, os outros vivem no Uruguai até hoje, as tias em Rivera e o tio em Tacurembó.
Minha mãe sempre me conta sobre a sua infância. São histórias bonitas, recheadas de imaginação e simbolismos. Uma verdadeira viagem. Fala desse tempo com denotado carinho, lembra a figura do pai, o meu avô Hidro Alves Ferreira. Um homem alto, muito elegante, de traços bonitos, que andava sempre muito bem arranjado e cheirando a bons perfumes. Dono de gestos e palavras educadas, era um gentleman. Lembro dele assim, vestindo uns ternos claros e muito alinhados. Era carinhoso com a gente. E deu uma educação interessante aos filhos, é um pouco dele essa coisa de descobrir, desbravar, viver com uma boa dose de ousadia e ter a responsabilidade total sobre os próprios atos. Foi um homem bem sucedido. Uma pessoa positiva e sonhadora, mas com os pés no chão. Tenho pena de não ter convivido mais com ele, ficou gravemente doente e faleceu quando eu andava perto dos doze anos.
Curioso que minha avó, mesmo sendo de origem portuguesa, tinha umas feições e um estilo inconfundíveis de espanhola. E tinha lá uns cabelos muito longos, que conservou até bem velhinha. Adorava vê-la pentear-se calmamente os longos cabelos, de manhã, quando acordava. Dentro de uma camisola clara e comprida, parecia uma menina daqueles filmes antigos. Depois, num gesto preciso e rápido, enrolava-os em um pequeno coque no alto da cabeça e adquiria ares de senhora elegante. Vestia costumeiramente saia e uma blusa branca ou bege, tipo camisa, abotoada na frente. Por cima um casaquinho justo de linha ou lã, também de botões pequeninos e delicados, que abotoava, deixando à mostra apenas a gola redonda da blusa. Acho que completava com um pequeno camafeu. Nos pés, mocassins escuros, de saltos baixos, confortáveis. Não lembro da minha avó usando jóias, acho que era prática demais prá isso. Usava, sim, uns lenços muito bem jogados sobre os ombros, que lhe faziam ainda mais bonita.
Acordava cedo e vivia em uma azáfama com suas atividades diárias. A esta altura morava sozinha naquele casarão enorme, na esquina da Ituzaingó y Rodó. No outro canto do quarto de dormir,havia um cofre grande e pesado, onde guardava uma lata colorida de caramelos ou coisa que o valha. Nela, moedas e notas de pesos uruguaios. Tinha o dinheiro em casa, não acreditava em bancos, contra a vontade de minhas tias mais novas, que temiam algum assalto, já que vivia sozinha. Mas ela sempre fez o que quis e bem entendeu. E desconfio que isso não foi um privilégio só dela nesta família. Era uma mulher muito forte, de personalidade marcante, de vontades férreas e muita atitude.
E tinha esse lado criativo.
Muito antes de sonharmos com as coisas de inventar teatrinho de brinquedo, nas tardes ensolaradas de Domingos Petrolini, ela dirigia peças teatrais apresentadas aos paroquianos da igreja matriz, em Rivera. E produzia os figurinos das incontáveis peças, onde os filhos e os amigos dos filhos, grande parte das vezes, faziam parte. Como a brincar com bonecas grandes e a fazer-lhes as roupinhas. Não havia limites para os sonhos da minha avó. E escrevia-os todos e não só. Também relatava os fatos com maestria, como naquela vez em que sofreu um acidente em um trem que descarrilhou, numa de suas viagens pelo Uruguai, a vender lençóis finamente bordados, vindos de Santa Maria, que depois ela ensinou as filhas a bordar também. Enquanto o trem descarrilhava, ela escrevia. E depois. Fazia poemas de tudo, a vó Maria. E depois lia-os nas reuniões de família e ria-se muito ao contar as façanhas. Aos quase setenta, vivia em plenitude, como se a vida estivesse recém começando. Era independente, completamente dona do seu nariz.
Teve também um pequeno bar, na garagem de casa. Pois teve. Lembro de umas bolachas recheadas (as galletitas rellenas) que eram vendidas por peso, tiradas de latas grandes e coloridas. Ainda lembro o gosto. Uma verdadeira desgraça para as silhuetas. Mas naqueles tempos essa preocupação não havia. Eu era magrinha como um palito, nem saia usava, com vergonha das pernas finas, que mais pareciam caniços. Quero dizer, na verdade, que não gostava de usá-las. Mas a minha mãe achava bonito vestir-me com saias a la escocês, pregueadas e tudo, um pouquinho abaixo dos joelhos. E compunha o quadro com umas meias do tipo colegial, transparentes e coloridas, que combinavam com as cores da saia e da blusa, tecida por ela mesma (os twin sets de hoje). Nos pés uns mocassins portenhos, feitos à mão, baixinhos, comprados lá no Uruguai, mas vindos da Argentina e que até hoje procuro em todo o lado, mas não encontro para comprar. Claro, tinha também um laçarote de fita que, de certeza, pelas fotos que vejo, era maior do que a minha cabeça.
Ao lado da casa de minha avó, ali na Rodó, havia uma loja grande da FIAT, tipo concessionária com oficina. Os empregados vinham fazer o lanche ali no bar da avó e lembro que comiam sempre muito chocolate. Ela me explicava que era por causa do frio e que o chocolate ajudava a se manterem aquecidos. Eu não entendia muito bem, mas acreditava piamente. Tanto que às vezes me pego falando isso aos meus netos, hoje em dia.
O pessoal da loja eram os melhores clientes do bar. Foi ali que comecei a aprender o pouco de espanhol que sei. Ouvindo minha avó charlar com os fregueses, con el señor de la panadería, de la carnicería, de la florería, con las vecinas, con las amigas en la calle y con mis primitos, hijos de las tías más pequenãs que vivían alla. Tempos depois, já na adolescência, me apaixonei perdidamente por um dos filhos do dono da concessionária, o Daniel Fernández. E tivemos uma espécie de namoro en sério que, mesmo completamente inocente, custou algum incômodo à avó. Lembranças felizes, que talvez mereçam um capítulo a parte e noutra hora conto.
Hoje preciso sair à rua, porque o sol já me beija pela fresta da janela, aqui e agora, muitos e muitos anos depois.
Até a vista.
Os carnavais eram quase todos de revolver aquele baú mágico que havia no canto do quarto da avó e encontrar ali as fantasias mais inusitadas. Fazíamos sucesso nos bailes do Clube Uruguai, onde confetes e serpentina forravam o chão do salão e tenho uma vaga lembrança de que às vezes formavam montes que nos chegavam perto dos joelhos. Eram tempos de fartura, em todos os sentidos.
Minha avó Maria era daquelas figuras marcantes. Mulher de personalidade forte, descendente de um português que aportou em Pelotas, casou muito cedo com meu avô, um castelhano nascido dentro de um navio no Mar del Plata. Conheceram-se em Pelotas, onde ele, neto de avó índia, era proprietário de uma ferragem e uma espécie de cônsul argentino naquelas paragens. A minha avó vivia com os dois irmãos e o pai, em virtude da morte prematura de sua mãe. Era ainda uma menina sonhadora quando passou à condição de esposa. Meu avô, alguns anos mais velho, tratava-a com a delicadeza proporcional à fragilidade que acreditava ter, enchendo-a de mimos, presentes e um carinho quase de pai. Quando ela, por herança, recebeu umas terras no interior doUruguai, foram viver em Rivera e ali estiveram até o fim de suas vidas, como cidadãos uruguaios, embora sendo ela brasileira e ele argentino. Na verdade, a avó, por conta de ter casado com ele, também tinha cidadania argentina. Tiveram cinco filhos, a minha mãe, a tia Martha, o tio Beto, a tia Ude e a tia Marita. À exceção de minha mãe e da tia Martha, os outros vivem no Uruguai até hoje, as tias em Rivera e o tio em Tacurembó.
Minha mãe sempre me conta sobre a sua infância. São histórias bonitas, recheadas de imaginação e simbolismos. Uma verdadeira viagem. Fala desse tempo com denotado carinho, lembra a figura do pai, o meu avô Hidro Alves Ferreira. Um homem alto, muito elegante, de traços bonitos, que andava sempre muito bem arranjado e cheirando a bons perfumes. Dono de gestos e palavras educadas, era um gentleman. Lembro dele assim, vestindo uns ternos claros e muito alinhados. Era carinhoso com a gente. E deu uma educação interessante aos filhos, é um pouco dele essa coisa de descobrir, desbravar, viver com uma boa dose de ousadia e ter a responsabilidade total sobre os próprios atos. Foi um homem bem sucedido. Uma pessoa positiva e sonhadora, mas com os pés no chão. Tenho pena de não ter convivido mais com ele, ficou gravemente doente e faleceu quando eu andava perto dos doze anos.
Curioso que minha avó, mesmo sendo de origem portuguesa, tinha umas feições e um estilo inconfundíveis de espanhola. E tinha lá uns cabelos muito longos, que conservou até bem velhinha. Adorava vê-la pentear-se calmamente os longos cabelos, de manhã, quando acordava. Dentro de uma camisola clara e comprida, parecia uma menina daqueles filmes antigos. Depois, num gesto preciso e rápido, enrolava-os em um pequeno coque no alto da cabeça e adquiria ares de senhora elegante. Vestia costumeiramente saia e uma blusa branca ou bege, tipo camisa, abotoada na frente. Por cima um casaquinho justo de linha ou lã, também de botões pequeninos e delicados, que abotoava, deixando à mostra apenas a gola redonda da blusa. Acho que completava com um pequeno camafeu. Nos pés, mocassins escuros, de saltos baixos, confortáveis. Não lembro da minha avó usando jóias, acho que era prática demais prá isso. Usava, sim, uns lenços muito bem jogados sobre os ombros, que lhe faziam ainda mais bonita.
Acordava cedo e vivia em uma azáfama com suas atividades diárias. A esta altura morava sozinha naquele casarão enorme, na esquina da Ituzaingó y Rodó. No outro canto do quarto de dormir,havia um cofre grande e pesado, onde guardava uma lata colorida de caramelos ou coisa que o valha. Nela, moedas e notas de pesos uruguaios. Tinha o dinheiro em casa, não acreditava em bancos, contra a vontade de minhas tias mais novas, que temiam algum assalto, já que vivia sozinha. Mas ela sempre fez o que quis e bem entendeu. E desconfio que isso não foi um privilégio só dela nesta família. Era uma mulher muito forte, de personalidade marcante, de vontades férreas e muita atitude.
E tinha esse lado criativo.
Muito antes de sonharmos com as coisas de inventar teatrinho de brinquedo, nas tardes ensolaradas de Domingos Petrolini, ela dirigia peças teatrais apresentadas aos paroquianos da igreja matriz, em Rivera. E produzia os figurinos das incontáveis peças, onde os filhos e os amigos dos filhos, grande parte das vezes, faziam parte. Como a brincar com bonecas grandes e a fazer-lhes as roupinhas. Não havia limites para os sonhos da minha avó. E escrevia-os todos e não só. Também relatava os fatos com maestria, como naquela vez em que sofreu um acidente em um trem que descarrilhou, numa de suas viagens pelo Uruguai, a vender lençóis finamente bordados, vindos de Santa Maria, que depois ela ensinou as filhas a bordar também. Enquanto o trem descarrilhava, ela escrevia. E depois. Fazia poemas de tudo, a vó Maria. E depois lia-os nas reuniões de família e ria-se muito ao contar as façanhas. Aos quase setenta, vivia em plenitude, como se a vida estivesse recém começando. Era independente, completamente dona do seu nariz.
Teve também um pequeno bar, na garagem de casa. Pois teve. Lembro de umas bolachas recheadas (as galletitas rellenas) que eram vendidas por peso, tiradas de latas grandes e coloridas. Ainda lembro o gosto. Uma verdadeira desgraça para as silhuetas. Mas naqueles tempos essa preocupação não havia. Eu era magrinha como um palito, nem saia usava, com vergonha das pernas finas, que mais pareciam caniços. Quero dizer, na verdade, que não gostava de usá-las. Mas a minha mãe achava bonito vestir-me com saias a la escocês, pregueadas e tudo, um pouquinho abaixo dos joelhos. E compunha o quadro com umas meias do tipo colegial, transparentes e coloridas, que combinavam com as cores da saia e da blusa, tecida por ela mesma (os twin sets de hoje). Nos pés uns mocassins portenhos, feitos à mão, baixinhos, comprados lá no Uruguai, mas vindos da Argentina e que até hoje procuro em todo o lado, mas não encontro para comprar. Claro, tinha também um laçarote de fita que, de certeza, pelas fotos que vejo, era maior do que a minha cabeça.
Ao lado da casa de minha avó, ali na Rodó, havia uma loja grande da FIAT, tipo concessionária com oficina. Os empregados vinham fazer o lanche ali no bar da avó e lembro que comiam sempre muito chocolate. Ela me explicava que era por causa do frio e que o chocolate ajudava a se manterem aquecidos. Eu não entendia muito bem, mas acreditava piamente. Tanto que às vezes me pego falando isso aos meus netos, hoje em dia.
O pessoal da loja eram os melhores clientes do bar. Foi ali que comecei a aprender o pouco de espanhol que sei. Ouvindo minha avó charlar com os fregueses, con el señor de la panadería, de la carnicería, de la florería, con las vecinas, con las amigas en la calle y con mis primitos, hijos de las tías más pequenãs que vivían alla. Tempos depois, já na adolescência, me apaixonei perdidamente por um dos filhos do dono da concessionária, o Daniel Fernández. E tivemos uma espécie de namoro en sério que, mesmo completamente inocente, custou algum incômodo à avó. Lembranças felizes, que talvez mereçam um capítulo a parte e noutra hora conto.
Hoje preciso sair à rua, porque o sol já me beija pela fresta da janela, aqui e agora, muitos e muitos anos depois.
Até a vista.
O filme do Saura
Quinta-feira, Janeiro 26, 2012
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